Amigo visitante
Foi bom enquanto durou!
Agora estou de casa nova. Por favor, espero sua visita em meu novo endereço.
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Abraços
Luiz Andrioli
Segunda-feira, Abril 21, 2008
Segunda-feira, Outubro 01, 2007
Livro na boca do forno...
Caros
Após um período longe do mundo blogueiro (ok, nunca fui tão íntimo assim), posto aqui o motivo de minha ausência.
Em breve estarei lançando o livro "O Circo e a Cidade: histórias do grupo circense Queirolo em Curitiba".
Uma pesquisa de quase dez anos, entre idas e vindas... Uma escrita de quase um ano, entre noites insones e manhãs inspiradas. O lançamento está previsto para novembro.
O texto abaixo fala um pouquinho sobre o dito cujo!
O Circo e a Cidade – histórias do grupo circense Queirolo em Curitiba
A década de 1940, período em que Curitiba vivia sob a sombra da Segunda Guerra Mundial, marca a chegada em definitivo dos Irmãos Queirolo à capital paranaense. Eles vieram para inaugurar o principal espaço cultural daquele período: o Pavilhão Carlos Gomes. Julian e Otelo Queirolo interpretavam os imortais Harris e Chic-Chic, os “reis da galhofa”, como eram amplamente divulgados. O público fazia filas para assistir às criações do grupo.
Em anos anteriores o grupo já havia conquistado o público curitibano, isto apesar da fama que circulava entre outras companhias circenses de que a cidade era conhecida com “caveira de burro”, conhecida por dar azar para o grupo que por ela se aventurasse. Para os Queirolo, apenas uma lenda tola, afinal eram grandes estrelas que já contavam com décadas de bem sucedidas temporadas pela Europa, América e África.
Nas décadas de 1950 e 1960 a família viaja pelos bairros de Curitiba, uma excursão que marcou milhares de curitibanos que puderam ter o circo praticamente na porta de casa. O leque de opções era farto: ia da comédia popular ao drama clássico, passando pelo épico, sem deixar de lado o sacro.
Ajudaram a fundar a televisão no Paraná. Artistas de vanguarda, souberam levar o improviso da arte circense para um novo veículo que quando ainda dependia dos talentos locais, o que os fez ainda mais famosos. Chic-Chic foi para a frente das câmeras em uma emissora, em outra a família adaptou o picadeiro às grandes limitações de um pequeno estúdio. Mais tarde fizeram uma versão paranaense do Capitão Furacão. Mas quando as emissoras descobriram que era mais viável se render às atrações de fora da terrinha, os Queirolo retornaram as atenções para o velho circo. Perceberam então que o público já não estava mais tão disposto a enfrentar o frio da lona e o desconforto da arquibancada sobre a serragem.
O poder público tentou intervir, buscou incentivar o retorno da arte circense, comprou lona nova e fez propaganda da retomada do circo dos Queirolo. Mas os tempos haviam mudado. O recado do final da década de 1970 era claro: a TV roubara o público que já havia sido fiel ao espetáculo circense.
O espetáculo deve continuar?
***
A pesquisa do escritor e jornalista Luiz Andrioli foi transformada em livro graças ao apoio do Edital de Apoio e Registro do Patrimônio Imaterial de Curitiba promovido pela Fundação Cultural de Curitiba em 2006. O jornalista e cineasta Adriano Justino assina a edição do projeto, além de ter dividido a pesquisa com o autor. Mil exemplares do livro foram distribuídos gratuitamente para escolas, faculdades, instituições de ensino e pesquisa e centros culturais.
O Circo e a Cidade – histórias do grupo circense Queirolo em Curitiba analisa mais de 150 anos de trajetória de uma faz famílias circenses mais importantes do Brasil e coloca um olhar crítico e bem humorado sobre a relação da troupe com a capital paranaense.
Após um período longe do mundo blogueiro (ok, nunca fui tão íntimo assim), posto aqui o motivo de minha ausência.
Em breve estarei lançando o livro "O Circo e a Cidade: histórias do grupo circense Queirolo em Curitiba".
Uma pesquisa de quase dez anos, entre idas e vindas... Uma escrita de quase um ano, entre noites insones e manhãs inspiradas. O lançamento está previsto para novembro.
O texto abaixo fala um pouquinho sobre o dito cujo!
O Circo e a Cidade – histórias do grupo circense Queirolo em Curitiba
A década de 1940, período em que Curitiba vivia sob a sombra da Segunda Guerra Mundial, marca a chegada em definitivo dos Irmãos Queirolo à capital paranaense. Eles vieram para inaugurar o principal espaço cultural daquele período: o Pavilhão Carlos Gomes. Julian e Otelo Queirolo interpretavam os imortais Harris e Chic-Chic, os “reis da galhofa”, como eram amplamente divulgados. O público fazia filas para assistir às criações do grupo.
Em anos anteriores o grupo já havia conquistado o público curitibano, isto apesar da fama que circulava entre outras companhias circenses de que a cidade era conhecida com “caveira de burro”, conhecida por dar azar para o grupo que por ela se aventurasse. Para os Queirolo, apenas uma lenda tola, afinal eram grandes estrelas que já contavam com décadas de bem sucedidas temporadas pela Europa, América e África.
Nas décadas de 1950 e 1960 a família viaja pelos bairros de Curitiba, uma excursão que marcou milhares de curitibanos que puderam ter o circo praticamente na porta de casa. O leque de opções era farto: ia da comédia popular ao drama clássico, passando pelo épico, sem deixar de lado o sacro.
Ajudaram a fundar a televisão no Paraná. Artistas de vanguarda, souberam levar o improviso da arte circense para um novo veículo que quando ainda dependia dos talentos locais, o que os fez ainda mais famosos. Chic-Chic foi para a frente das câmeras em uma emissora, em outra a família adaptou o picadeiro às grandes limitações de um pequeno estúdio. Mais tarde fizeram uma versão paranaense do Capitão Furacão. Mas quando as emissoras descobriram que era mais viável se render às atrações de fora da terrinha, os Queirolo retornaram as atenções para o velho circo. Perceberam então que o público já não estava mais tão disposto a enfrentar o frio da lona e o desconforto da arquibancada sobre a serragem.
O poder público tentou intervir, buscou incentivar o retorno da arte circense, comprou lona nova e fez propaganda da retomada do circo dos Queirolo. Mas os tempos haviam mudado. O recado do final da década de 1970 era claro: a TV roubara o público que já havia sido fiel ao espetáculo circense.
O espetáculo deve continuar?
***
A pesquisa do escritor e jornalista Luiz Andrioli foi transformada em livro graças ao apoio do Edital de Apoio e Registro do Patrimônio Imaterial de Curitiba promovido pela Fundação Cultural de Curitiba em 2006. O jornalista e cineasta Adriano Justino assina a edição do projeto, além de ter dividido a pesquisa com o autor. Mil exemplares do livro foram distribuídos gratuitamente para escolas, faculdades, instituições de ensino e pesquisa e centros culturais.
O Circo e a Cidade – histórias do grupo circense Queirolo em Curitiba analisa mais de 150 anos de trajetória de uma faz famílias circenses mais importantes do Brasil e coloca um olhar crítico e bem humorado sobre a relação da troupe com a capital paranaense.
Sexta-feira, Setembro 16, 2005
UMA GUERRA POR UM PENTE
Oito de dezembro de 1959. Antonio Haroldo Tavares, subtenente da Polícia Militar compra um pente e pede uma nota fiscal. O comerciante, o sírio-libanês Ahmad Najar, se nega a emitir o documento, talvez pelo irrisório valor, quinze cruzeiros. O policial bate o pé em nome de seu direito (e dever) de contribuinte. Não era uma questão de valor financeiro, mas sim, de princípios! O clima de tensão contamina os quatro funcionários da loja que ajudam o patrão a jogar o “problema” porta fora. No entrave corporal, Antonio tem uma perna fraturada. Cerca de trinta pessoas que assistem a briga se revoltam e iniciam uma depredação do Bazar Centenário. Era o estopim para a Guerra do Pente – Talvez a maior revolta popular já vista na capital paranaense. Mas a real motivação para a “barbárie urbana” que estava por acontecer ultrapassava os limites curitibanos.
O Brasil vivia uma época esperançosa, pelo menos era o que dizia a propaganda oficial. Juscelino Kubitschek, com a promessa dos cinqüenta anos de progresso em cinco de governo, buscava convencer a população do desenvolvimentismo puxado pela industrialização. O governo promovia o consumo com olhos na arrecadação. O cidadão era incentivado a pedir notas-fiscais e trocá-las por cupons que davam direito a participações em sorteios de prêmios. A campanha “Seu Talão Vale um Milhão” era uma mania brasileira que virou até tema de marchinha de carnaval em 1960.
Mas nem tudo se resumia a confete e serpentina. Os altos índices de inflação preocupavam os pais de família. O momento também era de tensão política. Dias antes militares haviam iniciado um movimento contra o governo JK, conhecido como o Levante de Aragarças. O movimento se apagaria poucos dias depois, mas algo de instável permaneceria no ar.
Voltemos àquela terça-feira, fim de tarde em Curitiba. O Bazar Centenário está com o estoque jogado na rua. O movimento cresceu e já soma duzentas pessoas. Nesta altura ninguém mais se importa com o comerciante que foi levado preso pela polícia ou com o fardado que seguiu de ambulância para um hospital. A região da Praça Tiradentes, reduto de vários comércios de sírio-libaneses, vira um palco de vandalismo. Lojas são invadidas, saqueadas, queimadas... Quem tem tempo, baixa as portas. Quem não tem, luta sem sucesso contra uma massa ensandecida. A multidão ganha o reforço dos que saem de seus serviços. O ataque ao comércio já não é o suficiente, a ira cai sobre os prédios públicos. Mostrando o caráter anárquico do quebra-quebra, onde poucas regras são estabelecidas tampouco seguidas, os revoltosos atacam até os carrinhos dos vendedores ambulantes de frutas.
Somente seis horas depois a coisa começou a se acalmar em Curitiba. A Polícia Civil contabilizou dez feridos, ironicamente oito deles eram policiais. De populares, mais de trinta presos, alguns com objetos furtados. Correu a boca pequena que o “protesto” era coisa de estudantes. A União Paranaense dos Estudantes foi a público lavar as mãos, atitude endossada em editorial de um dos jornais da capital. O periódico trazia em sua opinião que os “cabeças das desordens” eram “desocupados ou operários”.
O segundo dia
Logo cedo, enquanto alguns ainda saboreavam as manchetes sensacionalistas do tumulto, uma agitação no centro da cidade anuncia o segundo dia da Guerra do Pente. O comerciante Salim Mattar, da Casa Três Irmãos, ao ver a onda de depredação se aproximando, sacou de um revolver disparando cinco tiros para cima. Uma tentativa desesperada já que nem mesmo os tanques do Exército que foram deslocados para o front deram conta de amedrontar a população. Alguém tenta aproveitar o embalo para destilar um discurso político, o que é de pronto repelido - por pouco não sobrou uns bons sopapos para os oradores de plantão. O momento era de ataque ao patrimônio, pura catarse... Nada de teoria! O tumulto só terminaria na chegada da noite. Como motivo algo bem curitibano: uma chuvinha típica de não deixar alma viva na rua.
Na quinta-feira, as análises colocavam mais polêmica sobre os reais motivos da Guerra do Pente. Alguém comparou a insurreição curitibana ao Levante de Aragarças. Um famoso criminalista da época creditou a violência ao alto custo de vida – um desabafo do povo. “O problema é fome”, sentenciava outro. O fato é que algo acontecera além da previsibilidade costumeira do curitibano naqueles dois dias. Um dos grandes jornais da capital paranaense trouxe na capa: reestabelecida a ordem e a tranqüilidade. Ironicamente, pouco acima da manchete um anúncio em letras garrafais continuava a afirmar que “Seu Talão Vale um Milhão”.
Texto originalmente publicado na revista “Aventuras na História”, edição 17, janeiro de 2005.
O Brasil vivia uma época esperançosa, pelo menos era o que dizia a propaganda oficial. Juscelino Kubitschek, com a promessa dos cinqüenta anos de progresso em cinco de governo, buscava convencer a população do desenvolvimentismo puxado pela industrialização. O governo promovia o consumo com olhos na arrecadação. O cidadão era incentivado a pedir notas-fiscais e trocá-las por cupons que davam direito a participações em sorteios de prêmios. A campanha “Seu Talão Vale um Milhão” era uma mania brasileira que virou até tema de marchinha de carnaval em 1960.
Mas nem tudo se resumia a confete e serpentina. Os altos índices de inflação preocupavam os pais de família. O momento também era de tensão política. Dias antes militares haviam iniciado um movimento contra o governo JK, conhecido como o Levante de Aragarças. O movimento se apagaria poucos dias depois, mas algo de instável permaneceria no ar.
Voltemos àquela terça-feira, fim de tarde em Curitiba. O Bazar Centenário está com o estoque jogado na rua. O movimento cresceu e já soma duzentas pessoas. Nesta altura ninguém mais se importa com o comerciante que foi levado preso pela polícia ou com o fardado que seguiu de ambulância para um hospital. A região da Praça Tiradentes, reduto de vários comércios de sírio-libaneses, vira um palco de vandalismo. Lojas são invadidas, saqueadas, queimadas... Quem tem tempo, baixa as portas. Quem não tem, luta sem sucesso contra uma massa ensandecida. A multidão ganha o reforço dos que saem de seus serviços. O ataque ao comércio já não é o suficiente, a ira cai sobre os prédios públicos. Mostrando o caráter anárquico do quebra-quebra, onde poucas regras são estabelecidas tampouco seguidas, os revoltosos atacam até os carrinhos dos vendedores ambulantes de frutas.
Somente seis horas depois a coisa começou a se acalmar em Curitiba. A Polícia Civil contabilizou dez feridos, ironicamente oito deles eram policiais. De populares, mais de trinta presos, alguns com objetos furtados. Correu a boca pequena que o “protesto” era coisa de estudantes. A União Paranaense dos Estudantes foi a público lavar as mãos, atitude endossada em editorial de um dos jornais da capital. O periódico trazia em sua opinião que os “cabeças das desordens” eram “desocupados ou operários”.
O segundo dia
Logo cedo, enquanto alguns ainda saboreavam as manchetes sensacionalistas do tumulto, uma agitação no centro da cidade anuncia o segundo dia da Guerra do Pente. O comerciante Salim Mattar, da Casa Três Irmãos, ao ver a onda de depredação se aproximando, sacou de um revolver disparando cinco tiros para cima. Uma tentativa desesperada já que nem mesmo os tanques do Exército que foram deslocados para o front deram conta de amedrontar a população. Alguém tenta aproveitar o embalo para destilar um discurso político, o que é de pronto repelido - por pouco não sobrou uns bons sopapos para os oradores de plantão. O momento era de ataque ao patrimônio, pura catarse... Nada de teoria! O tumulto só terminaria na chegada da noite. Como motivo algo bem curitibano: uma chuvinha típica de não deixar alma viva na rua.
Na quinta-feira, as análises colocavam mais polêmica sobre os reais motivos da Guerra do Pente. Alguém comparou a insurreição curitibana ao Levante de Aragarças. Um famoso criminalista da época creditou a violência ao alto custo de vida – um desabafo do povo. “O problema é fome”, sentenciava outro. O fato é que algo acontecera além da previsibilidade costumeira do curitibano naqueles dois dias. Um dos grandes jornais da capital paranaense trouxe na capa: reestabelecida a ordem e a tranqüilidade. Ironicamente, pouco acima da manchete um anúncio em letras garrafais continuava a afirmar que “Seu Talão Vale um Milhão”.
Texto originalmente publicado na revista “Aventuras na História”, edição 17, janeiro de 2005.
Quarta-feira, Maio 18, 2005
Futebolzinho com o pessoal da firma
Da série quarta-feira vendo um futebolzinho na TV
A Gestão de Pessoas, assunto tão em moda entre os candidatos a altos cargos nas empresas, me parece que ainda não olhou com olhos atentos para o futebol. Não, eu não sou consultor, não sou palestrante ou coisa parecida. Tampouco jogo futebol. Aliás, jogo, mas algo que deveria ser restrito a quatro paredes. Do banheiro. Vergonhoso.
Penso que não exista nada melhor para que se conheça alguns aspectos fundamentais do caráter do que atividades de grupo. No grupo, alguns pensam que se escondem, mas todos se destacam. Nas diferenças o caráter aflora. Ou a falta de dele.
Se eu fosse um grande executivo, alguém com poder numa empresa (ato falho, olha eu me colocando como candidato à CEO), colocaria como parte do processo de seleção uma partidinha de futebol com o pessoal da “firma”. E ficaria só de butuca, só de zóio, como se diz por aí.
Eu gosto de ver gente que conheço, de preferência colegas de trabalho, jogando futebol. Não é feitiche nem perda de tempo, é sim uma ferramenta pra conhecer melhor aquele com quem você divide boa parte do seu dia.
Todos querem ser artilheiros, crescemos (pelo menos aqui no meu bairro) fazendo de duas pedras as traves, driblando no antipó tendo a inspiração daqueles ídolos da década de 80: Zico, Sócrates, Rivelino e por aí vai... Natural que cada um, pelo menos os do sexo masculino que trazem consigo a “Febre de Bola” (com a devida licença do Nick Hornby), queiram mostra que podem chegar lá, mesmo que o “chegar lá” signifique ir da área de defesa à linha do gol, sozinho. E aí? Quem é este cara que não divide a sua possibilidade de sucesso? E aquele que na defesa olha para baixo e prefere peitar dois do ataque quando poderia subir a visão e passar para o colega de retranca ao lado? Quem é este nas dificuldades do dia a dia?
Já tentei olhar uma empresa como um grande time, tal como ouvi um consultor dizer certa feita. Claro, confesso que levei um pouco ao pé da letra. Coloquei, mentalmente, a galera em campo. O departamento de recursos humanos eu deixei no meio de campo, administrando os conflitos. As gerências e as chefias diretas joguei nas laterais, fazendo a ponte entre a retranca e o ataque. Aliás, na retranca não me veio outro nome que não o departamento financeiro, segurando tudo e afastando de si a possibilidade de cair num placar negativo. No trio de ataque (sim, eu trabalho com três, dá licença?), duas superintendências, deixando o posto do matador (as glórias) para a presidência. Que tal? De técnico, fica o consultor que inspirou o TIFICLUBE (Time da Firma Futebol Clube). Eu fui pro gol, não sei exatamente o porquê. Esta fica para o leitor analisar.
A Gestão de Pessoas, assunto tão em moda entre os candidatos a altos cargos nas empresas, me parece que ainda não olhou com olhos atentos para o futebol. Não, eu não sou consultor, não sou palestrante ou coisa parecida. Tampouco jogo futebol. Aliás, jogo, mas algo que deveria ser restrito a quatro paredes. Do banheiro. Vergonhoso.
Penso que não exista nada melhor para que se conheça alguns aspectos fundamentais do caráter do que atividades de grupo. No grupo, alguns pensam que se escondem, mas todos se destacam. Nas diferenças o caráter aflora. Ou a falta de dele.
Se eu fosse um grande executivo, alguém com poder numa empresa (ato falho, olha eu me colocando como candidato à CEO), colocaria como parte do processo de seleção uma partidinha de futebol com o pessoal da “firma”. E ficaria só de butuca, só de zóio, como se diz por aí.
Eu gosto de ver gente que conheço, de preferência colegas de trabalho, jogando futebol. Não é feitiche nem perda de tempo, é sim uma ferramenta pra conhecer melhor aquele com quem você divide boa parte do seu dia.
Todos querem ser artilheiros, crescemos (pelo menos aqui no meu bairro) fazendo de duas pedras as traves, driblando no antipó tendo a inspiração daqueles ídolos da década de 80: Zico, Sócrates, Rivelino e por aí vai... Natural que cada um, pelo menos os do sexo masculino que trazem consigo a “Febre de Bola” (com a devida licença do Nick Hornby), queiram mostra que podem chegar lá, mesmo que o “chegar lá” signifique ir da área de defesa à linha do gol, sozinho. E aí? Quem é este cara que não divide a sua possibilidade de sucesso? E aquele que na defesa olha para baixo e prefere peitar dois do ataque quando poderia subir a visão e passar para o colega de retranca ao lado? Quem é este nas dificuldades do dia a dia?
Já tentei olhar uma empresa como um grande time, tal como ouvi um consultor dizer certa feita. Claro, confesso que levei um pouco ao pé da letra. Coloquei, mentalmente, a galera em campo. O departamento de recursos humanos eu deixei no meio de campo, administrando os conflitos. As gerências e as chefias diretas joguei nas laterais, fazendo a ponte entre a retranca e o ataque. Aliás, na retranca não me veio outro nome que não o departamento financeiro, segurando tudo e afastando de si a possibilidade de cair num placar negativo. No trio de ataque (sim, eu trabalho com três, dá licença?), duas superintendências, deixando o posto do matador (as glórias) para a presidência. Que tal? De técnico, fica o consultor que inspirou o TIFICLUBE (Time da Firma Futebol Clube). Eu fui pro gol, não sei exatamente o porquê. Esta fica para o leitor analisar.
Terça-feira, Dezembro 28, 2004
DA SÉRIE NÓIS TAMBEM GOSTA!!
A DESELEGÂNCIA DISCRETA DA MENINA
Gosto da menina que não mostra as curvas, embora as tenha em proporção simétrica ao seu tamanho, uma pequena obra que só se nota o fino aroma quando atento. A menina não se dá a olhares displicentes, para quem o divide entre trânsito, comida, contas a pagar e receber. A menina pede mais. E na maioria das vezes recebe.
Ela não fica cansada, tem soninho!
É beleza que não se mostra na primeira entrevista, que não se expõem na ficha de cadastro, que tem mais caracteres do que os cabíveis no formulário. Se fosse para explicar, teria que ser em manuscrito, com caderno de caligrafia, fazendo aquela voltinha no “h” do charme, com uma perninha no “p” de perninha. Sim, porque a deselegância discreta vem no diminutivo, quase uma amostra do que se pode vir a conhecer... Discretamente.
Ela não come bolo, come bolinho!
Quando sorri – é possível de medir matematicamente – a boca se abre por exatamente um segundo, o pescoço se inclina um pouquinho para cima, como se a graça fosse dos céus, e fica aquele breve instante de silêncio. Após pode tanto vir um sorriso de simpatia quando uma gargalhada capaz de laurear a piada em questão. Ou não. E aí está o suspense, a imprevisibilidade discreta da menina.
Fala baixo, baixinho.
Se fosse uma música, não teria percussão. O compasso seria marcado por um instrumento de corda, a suavidade de um violino. Se fosse vento, pouparia as folhas. Se fosse tela, não teria moldura. Se fosse bailarina, não teria sapatilhas... Suave, pequena, discreta... Menina.
Gosto da menina que não mostra as curvas, embora as tenha em proporção simétrica ao seu tamanho, uma pequena obra que só se nota o fino aroma quando atento. A menina não se dá a olhares displicentes, para quem o divide entre trânsito, comida, contas a pagar e receber. A menina pede mais. E na maioria das vezes recebe.
Ela não fica cansada, tem soninho!
É beleza que não se mostra na primeira entrevista, que não se expõem na ficha de cadastro, que tem mais caracteres do que os cabíveis no formulário. Se fosse para explicar, teria que ser em manuscrito, com caderno de caligrafia, fazendo aquela voltinha no “h” do charme, com uma perninha no “p” de perninha. Sim, porque a deselegância discreta vem no diminutivo, quase uma amostra do que se pode vir a conhecer... Discretamente.
Ela não come bolo, come bolinho!
Quando sorri – é possível de medir matematicamente – a boca se abre por exatamente um segundo, o pescoço se inclina um pouquinho para cima, como se a graça fosse dos céus, e fica aquele breve instante de silêncio. Após pode tanto vir um sorriso de simpatia quando uma gargalhada capaz de laurear a piada em questão. Ou não. E aí está o suspense, a imprevisibilidade discreta da menina.
Fala baixo, baixinho.
Se fosse uma música, não teria percussão. O compasso seria marcado por um instrumento de corda, a suavidade de um violino. Se fosse vento, pouparia as folhas. Se fosse tela, não teria moldura. Se fosse bailarina, não teria sapatilhas... Suave, pequena, discreta... Menina.
Domingo, Dezembro 26, 2004
DA SÉRIE VIAGEM AO FUNDO EMOTIVO...
DE CÓCORAS...
Não lembro de tê-la visto sob a luz do sol. Para que chegássemos à sua casa era uma longa viagem, isto para os padrões de um piá que tinha a escola há dois quilômetros de casa e isto era tudo o que se deslocava diariamente. O cheiro era de borracha queimada, mas não tão forte quanto aquele da serra. Algo mais fraco, talvez um odor impregnado no bairro cheio de caminhoneiros que usam as calmas ruas sem manilhas para a manutenção de suas Scanias e Mercedes. A casa não tinha garagem e isto era um sinal de extrema pobreza ou de que as pessoas dali não precisavam ou não queriam ou não podiam ter um carro – tudo a mesma coisa para quem contava os passos naquele corredor (quarenta e dois) que desfilava por casas de madeira (seis), todas igualmente simples e cinzas.
O jardim tinha roseiras, mas elas nunca estavam floridas, ou pelo menos o apogeu das flores nunca coincidiu com as visitas da família ao local – se bem que o pai a visitava pelo menos duas vezes por semana, talvez mais nos últimos anos. Comigo e com a mãe, só nos fins de semana. Feriados, as vezes...
Tinha um forno de assar pão feito de concreto, cinza, cor de parede chapiscada, de muro pré-fabricado, com se tudo ali fosse concreto, uma obra de Nyemeier sem a genialidade nem a grandeza do mestre, sobrando apenas a aresta do criador – a frieza. Apesar do forno, o pão que nos esperava na mesa era do supermercado, das vezes que me lembro, trazido pelo pai em uma visita anterior talvez, mesma marca que o comido em casa.
O ambiente invariavelmente silencioso, com a impressão de que se não estivéssemos ali ninguém mais ousaria estar, até mesmo o vento, o sol, uma ligação telefônica, um quero-quero gralhando, enfim, tudo o que faz de uma casa um local com um sopro de vida, tudo se esqueceria de passar por ali e falar para aquela senhora de cabelos ruivos: ei, você ainda está na equipe Terra, ok? Levante uma mão ou acenda um fósforo caso concorde!
Na minha cabeça, mentalidade de uma criança ainda sem a malícia e a esperteza trazidas pelo conhecimento das letras, era algo de estranho visitar aquela senhora que não sentava em cadeiras. Olhando para aquela figura sizuda, rude, desprovida de qualquer infantilidade a quem me acostumaram a chamar de avó, não conseguia achar uma ligação entre ela e e meu pai. Ele com suas viagens e conquistas, com aquele fusca voltando toda a sexta feira repleto de barro e histórias para contar. Ela dentro de um contexto onde eu era obrigado a vestir roupa nova para sentar numa cadeira de palha velha e carcomida por cupins. Demorou para que em trechos de conversas a ligação entre “avó“e “mãe do meu pai” se fizesse clara e justificasse o pão com margarina de marca estranha, quando não, banha de cozinha, esta hoje me causa azia, mas na época era algo de diferente, uma fuga daquela conversa que beirava remédios (dela), reclamações (do meu pai sobre a vida, dela sobre os remédios), conselhos (dela sobre a vida, do meu pai sobre os remédios) e aquele chiadinho da TV velha e preta e branca que não sintonizava nada além das novelas tristes do canal que não era líder de audiência.
Pouco lhe herdei. Pouco ela me trouxe. Poucas vezes, imagino, ela tenha me segurado no colo quando criança. Talvez ela tenha até feito isto com os netos, mas na medida exata do permitido quando se tem onze filhos e sendo que cada um trouxe quatro ou cinco outros para o mundo. Apenas o constante quebrar das costas das cadeiras da minha casa atribuo àquela senhora de voz rouca, de cabelo ruim e ruivo – conseqüências da mania de ficar de cócoras, mesmo à frente do computador ou quando o bem estar social permita. Desta maneira ela recebia a todos em casa. Empoleirada em uma banqueta mais alta que as demais, como um “xamã”, mas cerca de oitenta centímetros acima do solo, quase a altura da mesa. Dali ela falava pouco, mas naquela áspera de quem trazia a boa educação na mesma medida da vigilância e da punição, do olhar que fazia aqueles filhos pedreiros, entregadores, comerciantes, alguns torneiros que se tornariam professores, todos muito abaixo de qualquer possibilidade de contrariar qualquer ordem da senhora cujo nome foi escrito errado pelo cartorário. Se assim fosse decretado, em situações onde a economia da casa pedisse, o salário de todos deveria ser confiado a ela. E por vezes foi. Ninguém reclamava, ninguém contrariava.
Ainda guardo em alguma gaveta os únicos presentes que ganhei dela. Não foram comprados para mim. São dois cavalinhos de plástico e um pequeno boi azul. Cabem na palma da mão. Na pata do boi dá pra ler a marca de uma indústria de leite. Talvez alguém tenha dado uma bandeja de iogurte (porque não imagino ela comprando algo assim, algo além do que se encontra numa cesta básica) pra ela e isto deve ter coincidido com uma das visitas nossas a sua casa, e eu devia estar agitado ou correndo demais, e a TV devia estar mais estragada que o normal, talvez somando com uma chuva... Enfim, por algum motivo que tenha passado aquém dos reais motivos que levam uma pessoa a presentear alguém, os dois cavalinhos e o boi “tudo azul” vieram para mim.
Lembro-me com menos de dez anos vendo uma agitação anormal aqui em casa, um telefone tocando de madrugada, vozes cochichadas, eu de pijama deduzindo pelos olhares, pelas roupas escuras pegas às pressas, que alguém tinha morrido. Há poucos dias tínhamos a visitado no Hospital e o tom do médico (amigo de longa data de meu pai) era de extrema seriedade. Voltei para o quarto e procurei os cavalinhos e o boizinho. Estava triste, de alguma maneira aquilo me afetava, me dizia que os próximos dias seriam de voz baixa, de televisão desligada, de missa, de ver gente que há tempos não se via, de cheiro de flor... Olhei para os brinquedos e chorei baixinho dentro daquele pequeno mundo que era o meu quarto, tudo tinha ficado cinza de repente, das roupas aos jogos e carrinhos, dos livros da escola às estrelas fosforescentes do teto... Triste já era lembrar daquela figura de cócoras com vestidos escuros, triste era saber de toda a tristeza que ainda estava por vir... Triste era pela primeira vez conhecer a morte tendo nas mãos brinquedos tristes...
Não lembro de tê-la visto sob a luz do sol. Para que chegássemos à sua casa era uma longa viagem, isto para os padrões de um piá que tinha a escola há dois quilômetros de casa e isto era tudo o que se deslocava diariamente. O cheiro era de borracha queimada, mas não tão forte quanto aquele da serra. Algo mais fraco, talvez um odor impregnado no bairro cheio de caminhoneiros que usam as calmas ruas sem manilhas para a manutenção de suas Scanias e Mercedes. A casa não tinha garagem e isto era um sinal de extrema pobreza ou de que as pessoas dali não precisavam ou não queriam ou não podiam ter um carro – tudo a mesma coisa para quem contava os passos naquele corredor (quarenta e dois) que desfilava por casas de madeira (seis), todas igualmente simples e cinzas.
O jardim tinha roseiras, mas elas nunca estavam floridas, ou pelo menos o apogeu das flores nunca coincidiu com as visitas da família ao local – se bem que o pai a visitava pelo menos duas vezes por semana, talvez mais nos últimos anos. Comigo e com a mãe, só nos fins de semana. Feriados, as vezes...
Tinha um forno de assar pão feito de concreto, cinza, cor de parede chapiscada, de muro pré-fabricado, com se tudo ali fosse concreto, uma obra de Nyemeier sem a genialidade nem a grandeza do mestre, sobrando apenas a aresta do criador – a frieza. Apesar do forno, o pão que nos esperava na mesa era do supermercado, das vezes que me lembro, trazido pelo pai em uma visita anterior talvez, mesma marca que o comido em casa.
O ambiente invariavelmente silencioso, com a impressão de que se não estivéssemos ali ninguém mais ousaria estar, até mesmo o vento, o sol, uma ligação telefônica, um quero-quero gralhando, enfim, tudo o que faz de uma casa um local com um sopro de vida, tudo se esqueceria de passar por ali e falar para aquela senhora de cabelos ruivos: ei, você ainda está na equipe Terra, ok? Levante uma mão ou acenda um fósforo caso concorde!
Na minha cabeça, mentalidade de uma criança ainda sem a malícia e a esperteza trazidas pelo conhecimento das letras, era algo de estranho visitar aquela senhora que não sentava em cadeiras. Olhando para aquela figura sizuda, rude, desprovida de qualquer infantilidade a quem me acostumaram a chamar de avó, não conseguia achar uma ligação entre ela e e meu pai. Ele com suas viagens e conquistas, com aquele fusca voltando toda a sexta feira repleto de barro e histórias para contar. Ela dentro de um contexto onde eu era obrigado a vestir roupa nova para sentar numa cadeira de palha velha e carcomida por cupins. Demorou para que em trechos de conversas a ligação entre “avó“e “mãe do meu pai” se fizesse clara e justificasse o pão com margarina de marca estranha, quando não, banha de cozinha, esta hoje me causa azia, mas na época era algo de diferente, uma fuga daquela conversa que beirava remédios (dela), reclamações (do meu pai sobre a vida, dela sobre os remédios), conselhos (dela sobre a vida, do meu pai sobre os remédios) e aquele chiadinho da TV velha e preta e branca que não sintonizava nada além das novelas tristes do canal que não era líder de audiência.
Pouco lhe herdei. Pouco ela me trouxe. Poucas vezes, imagino, ela tenha me segurado no colo quando criança. Talvez ela tenha até feito isto com os netos, mas na medida exata do permitido quando se tem onze filhos e sendo que cada um trouxe quatro ou cinco outros para o mundo. Apenas o constante quebrar das costas das cadeiras da minha casa atribuo àquela senhora de voz rouca, de cabelo ruim e ruivo – conseqüências da mania de ficar de cócoras, mesmo à frente do computador ou quando o bem estar social permita. Desta maneira ela recebia a todos em casa. Empoleirada em uma banqueta mais alta que as demais, como um “xamã”, mas cerca de oitenta centímetros acima do solo, quase a altura da mesa. Dali ela falava pouco, mas naquela áspera de quem trazia a boa educação na mesma medida da vigilância e da punição, do olhar que fazia aqueles filhos pedreiros, entregadores, comerciantes, alguns torneiros que se tornariam professores, todos muito abaixo de qualquer possibilidade de contrariar qualquer ordem da senhora cujo nome foi escrito errado pelo cartorário. Se assim fosse decretado, em situações onde a economia da casa pedisse, o salário de todos deveria ser confiado a ela. E por vezes foi. Ninguém reclamava, ninguém contrariava.
Ainda guardo em alguma gaveta os únicos presentes que ganhei dela. Não foram comprados para mim. São dois cavalinhos de plástico e um pequeno boi azul. Cabem na palma da mão. Na pata do boi dá pra ler a marca de uma indústria de leite. Talvez alguém tenha dado uma bandeja de iogurte (porque não imagino ela comprando algo assim, algo além do que se encontra numa cesta básica) pra ela e isto deve ter coincidido com uma das visitas nossas a sua casa, e eu devia estar agitado ou correndo demais, e a TV devia estar mais estragada que o normal, talvez somando com uma chuva... Enfim, por algum motivo que tenha passado aquém dos reais motivos que levam uma pessoa a presentear alguém, os dois cavalinhos e o boi “tudo azul” vieram para mim.
Lembro-me com menos de dez anos vendo uma agitação anormal aqui em casa, um telefone tocando de madrugada, vozes cochichadas, eu de pijama deduzindo pelos olhares, pelas roupas escuras pegas às pressas, que alguém tinha morrido. Há poucos dias tínhamos a visitado no Hospital e o tom do médico (amigo de longa data de meu pai) era de extrema seriedade. Voltei para o quarto e procurei os cavalinhos e o boizinho. Estava triste, de alguma maneira aquilo me afetava, me dizia que os próximos dias seriam de voz baixa, de televisão desligada, de missa, de ver gente que há tempos não se via, de cheiro de flor... Olhei para os brinquedos e chorei baixinho dentro daquele pequeno mundo que era o meu quarto, tudo tinha ficado cinza de repente, das roupas aos jogos e carrinhos, dos livros da escola às estrelas fosforescentes do teto... Triste já era lembrar daquela figura de cócoras com vestidos escuros, triste era saber de toda a tristeza que ainda estava por vir... Triste era pela primeira vez conhecer a morte tendo nas mãos brinquedos tristes...
Segunda-feira, Novembro 22, 2004
Da serie megalomania falada, escrita e televisionada
Entrevista ao Jô Soares
A platéia está um pouco fria. Uma série de cinco entrevistas com políticos, matemáticos e coisas do gênero deixou um silêncio no ar. Sou chamado. Batem palmas esparsas. Ah, no caso, sou um artista de rua, trabalho em Parati, viajo muito, faço pinturas que lembram as rupestres, mas uso como matéria prima resto de comida. Minha arte apodrece na casa das pessoas, diz o apresentador. Todos riem puxados pelo animador do auditório. Eu fui descoberto nos Estados Unidos após ter uma tela comprada pelo Spielberg.
Durante a entrevista, faço um ar displicente. Falo de minha relação com Jack Nicholson, Uma Thurman... Tudo na mais completa normalidade. Clientes que viraram amigos. Minha matéria prima para os quadros vem do próprio jantar (ou almoço) que compartilho com os clientes. As sobras me servem como a argila serviria para um escultor tradicional. O apresentador me diz que em seu caso não haveria obra de arte, já que não deixaria sobras. Eu digo que no caso a obra de arte pode ser ele, com a vantagem de poder disfarçar o cheirinho! Todos riem. Sucesso.
***
Minha próxima será no Actor´s studio. Um ator que conseguiu a notoriedade após provar que as modernas técnicas de enriquecimento de urânio têm como base os fundamentos da memória emotiva descrita por Constantin Stanislavski. Um gênio que poderia usar o talento para a guerra nuclear, mas preferiu colocar seu talento em favor da interpretação. Dois filmes. O primeiro, ao estilo filme B com dificuldades de distribuição. O segundo, feito com um orçamento de cem mil dólares (o dobro do primeiro), mas que faturou trinta e cinco milhões (cem vezes mais que o primeiro). Digo que no momento meu principal projeto é comprar a coleção de Rolls Royces que pertenceu ao Bhagwan Shree Rajnesh. Todos dão cênicas gargalhadas. Eu digo: é sério. E é. Silêncio. Sucesso.
A platéia está um pouco fria. Uma série de cinco entrevistas com políticos, matemáticos e coisas do gênero deixou um silêncio no ar. Sou chamado. Batem palmas esparsas. Ah, no caso, sou um artista de rua, trabalho em Parati, viajo muito, faço pinturas que lembram as rupestres, mas uso como matéria prima resto de comida. Minha arte apodrece na casa das pessoas, diz o apresentador. Todos riem puxados pelo animador do auditório. Eu fui descoberto nos Estados Unidos após ter uma tela comprada pelo Spielberg.
Durante a entrevista, faço um ar displicente. Falo de minha relação com Jack Nicholson, Uma Thurman... Tudo na mais completa normalidade. Clientes que viraram amigos. Minha matéria prima para os quadros vem do próprio jantar (ou almoço) que compartilho com os clientes. As sobras me servem como a argila serviria para um escultor tradicional. O apresentador me diz que em seu caso não haveria obra de arte, já que não deixaria sobras. Eu digo que no caso a obra de arte pode ser ele, com a vantagem de poder disfarçar o cheirinho! Todos riem. Sucesso.
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Minha próxima será no Actor´s studio. Um ator que conseguiu a notoriedade após provar que as modernas técnicas de enriquecimento de urânio têm como base os fundamentos da memória emotiva descrita por Constantin Stanislavski. Um gênio que poderia usar o talento para a guerra nuclear, mas preferiu colocar seu talento em favor da interpretação. Dois filmes. O primeiro, ao estilo filme B com dificuldades de distribuição. O segundo, feito com um orçamento de cem mil dólares (o dobro do primeiro), mas que faturou trinta e cinco milhões (cem vezes mais que o primeiro). Digo que no momento meu principal projeto é comprar a coleção de Rolls Royces que pertenceu ao Bhagwan Shree Rajnesh. Todos dão cênicas gargalhadas. Eu digo: é sério. E é. Silêncio. Sucesso.
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